sexta-feira, 9 de março de 2012

O fim do último projeto


Hoje foi meu último dia de trabalho na escola de Pune. Foram seis intensas semanas, cada dia mais especial que o outro. Fiz grandes parceiros na escola e aprendi muito ensinando as crianças. Elas, sem dúvida, fizeram a minha estadia aqui ser mais do que inesquecível. Dentre os 62 pequenos, 62 me marcaram.
Tive meus problemas de sempre com conflitos em relação ao sistema de ensino e ao curto tempo do meu projeto. Mais uma vez ficou com aquele sentimento de que não foi o suficiente. Mas vi alguns pequenos aprenderem a ler, outros ficaram um pouco mais independentes, outros simplesmente mais sorridentes.
Vou embora com um nó no peito, mas cheia de boas recordações. Hoje foi dia de festa na escola, com muitos cartazes e cartinhas de ‘boa viagem’, ‘volta logo’ e ‘obrigada’. Quem saiu agradecida mesmo fui eu.
Hoje a noite é dia de mais uma festa de despedida. Mais grandes amigos que foram feitos celebrando os belos encontros que a vida nos proporciona. Amanhã eu vou pro norte ver um pouquinho mais da imensa Índia.
Beijos saudosos e boa viagem!




domingo, 4 de março de 2012

Murros, Casamento e Marcha Ré

A cada dia que passa em um país diferente, você aprende algo novo. Ou melhor, você aprende muita coisa nova em cada minuto vivido em um ambiente estranho.
Aprendi por exemplo que por aqui, muita coisa acontece na força, de baixo do tapete. Há um tempo, Mumbai sofria com problemas relacioanados à drogas e ao narcotráfico. O problema foi resolvido pegando este pessoal na rua e matando. Foi resolvido, rapidinho, rapidinho. E por aqui polícia bate e professor bate livremente também, e quando eu pergunto para o pessoal se eles acham esta violência OK, eles respondem: 'Ninguém apanha sem merecer'. E se você bater o carro, corre, salve-se. Porque vira um fuzuê, uma multidão e em tempo recorde começa a pancadaria. Eu não entendo, porque este pessoal em geral é super pacífico, mas uma coisa que eu percebi ser bem indiana é resolver coisas 'na mão'.
A história do pedágio para mim é uma pérola. Pois bem, depois da cancela fica um pessoal com umas pedras enormes. Se você não pagar, eles jogam pedra no seu carro. Multa pra quê, meu irmão?
E para evitar batidas de carro indesejadas, uma boa medida é avisar quando se usa a marcha ré. Ao engatar a ré, automaticamente seu carro começa a tocar uma música e pasmem...a mais famosa é a instrumental de "Chorando se foi, quem uma dia só me fez chorar" (aquela velha lambada do final da década de 80). Levou um tempo para eu perceber que esta música vinha dos carros que estavam andando para trás.
E o mais intrigante para mim foi perceber que aqui o casamento arranjado ainda é regra e não exceção. Hoje mesmo, o Kadu, uma amigo indiano, dormiu aqui na casa de um amigo e saiu bem cedinho. E por que ele foi embora tão cedinho?
Hoje é um dia importante para ele. Vai uma moça em sua casa, amiga da família. Seus pais querem apresentá-la para ele. Ela será sua futura esposa. E eu achei que a família dele fosse tradicional, que este fosse apenas um caso. Mas conversa vai, conversa vem, descobri que o mais comum é pelo menos ter o consentimento das famílias. Que o casamento por amor é estranho e visto como perigoso, mesmo entre os jovens. O amor vem depois, constrói-se.

Vivendo e aprendendo. E como já dizia Gandhi: "Learn as if you are going to live forever!"
E que Ganesh nos proteja.

sábado, 3 de março de 2012

Experiência Completa

Vivia me gabando por estar viajando há um bom tempo e não ficar doente. E quando cheguei na Índia, o povo me dizia: "Espere e verás". "Aqui nenhum estômago escapa".
Só que quatro semanas de Índia e nada de passar mal, me fez pensar que eu seria a exceção. Bom, quase.

Este final de semana estava todo programado para Hampi, uma cidade com templos antigos. Passagem comprada, tudo certo. Mas meu corpinho resolveu pedir um tempo.
Vomita daqui, revira dali. Viagem cancelada e final de semana na cama e no banheiro. Viva a Índia!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os poliglotas

 Aqui em casa tem japonês dizendo “assim  você me mata”, brasileira dando ‘namastê’, alemão tomando chimarrão e russa comendo com chopsticks. Tem turco falando palavrão em chinês , azerbaijanês cantarolando em italiano e tcheco mandando o outro calar a boca em japonês. Em duas semanas já nos consideramos grandes camaradas. Daí quando disse a todos que era aniversário da minha sobrinha e pedi para eles me ajudarem a cantar parabéns para ela, todos concordaram na hora.
E para o aniversário da Ju, a ideia era cantar ‘Happy Birthday’ em conjunto e gravar para mandar para ela. Daí, quando vimos que cada um de nós era de um canto diferente do planeta decidimos cantar em nossas línguas. Pensei, ‘ah, o que der, deu’. Sem prestar atenção e nem imaginar quantos lugares distantes e distintos cada um de nós representava. Estamos sempre perdidos juntos aqui pela Índia e somos tão parecidos mesmo em nossas diferenças que nos passou despercebido a mistureba que somos.
E foi assim rapidinho, em menos de dois dias, que cantamos em 20 línguas. Teve italiano, francês e espanhol. E também teve tcheco, russo, húngaro, polonês e alemão. Azerbaijanês, persa, gujarat, hindi e até sânscrito. Japonês, chinês,árabe, turco e holandês. E para finalizar, inglês e o bom e velho português. 
Planeta Terra chamando, a casa é sua, entra logo.





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vai um Chai aí?



Como muitos bem sabem, por aqui se bebe chai. Esqueça o cafezinho e se entregue ao chá preto super doce com algumas especiarias e leite. Opa, mas eu não tomo leite. Ou melhor, não tomava.
 Não gosto e nem nunca gostei de leite não processado. Um queijo, um danone, uma manteiga sempre caíram bem, mas o leite mesmo nunca desceu. E no meu primeiro dia de trabalho, vem uma inspetora com um copão de chai e um grande sorriso para dar. Aí não teve jeito, balancei a cabeça para dizer sim e mandei para dentro.  Um leite gordo que só com nata boiando.
Mas devagar devagarinho o gosto começa a pegar. E agora todo dia às dez da manhã vem a inspetora com o meu ‘chaizinho’ e eu aceito feliz da vida. Em algumas ocasiões paro em qualquer vendinha na rua pra comprar meu chai por 5 rúpias (ou dez centavos de dólar).
Tim tim! E tentem em casa:

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Deu zebra, Professora Girafales


Eu e el Profesor Jirafales sempre tivemos muito em comum. Ele é super alto, chato, metódico e professor. Mas hoje senti na pele o que ele sente todos os dias dando aula para a turma do Chaves.
Não me entendam mal, as crianças são super espertas, inteligentes e sempre te surpeendem, todas elas. Mesmo que em contextos diferentes e com habilidades diversas. Mas é engraçado, então preciso compartilhar:
Enquanto ensinava a diferença de ‘there is’ e ‘there are’  mostrei uma foto para três alunos e pedi que eles descrevessem a foto. “There is a book on the table” e por aí vai. Uma atividade oral, só para relaxar. A foto era de um quarto cheio de coisas.
E começou assim:
“Zebra, zebra.” Gritou o Roshan e eu perguntei. “Roshan, onde você está vendo a zebra?”.
“ZEBRA ZEBRA”, berrou ele.
“Ok, Roshan, mas me diga alguma coisa que tem nesta foto e comece a frase com ‘there is’ ou ‘there are’.
E Roshan diz: ‘There is a zebra’.
“Parabéns. ‘There is’ está correto. Mas não tem nehuma zebra aí. Eu vou desenhar uma zebra em cima da cama, ok? Agora você fala a mesma frase mas inclua alguma coisa, pode ser a cor da zebra ou onde ela está. Por exemplo – there is a red book on the table. “ disse eu.
“Ok, There is a ONE zebra”, disse o Roshan.
“Rosha, A e ONE  são a mesma coisa. Ou é ‘there is a zebra’ ou ‘there is one zebra’.”
“Mas Didi (professora em hindi), você pediu para eu fazer uma frase mais longa e eu fiz.”
“Eu sei, Roshan, mas esta frase não está correta, você pode me dizer a cor da zebra, falar onde ela está, ou sobre alguma outra coisa que você vê neste desenho”.
E ele sem pestanejar me solta:
“Ok. There is there are a one zebra. Is it good now?”
Tá, very good. Tá bom para a didi se acalmar, inspirar e expirar, inspirar e expirar e começar tudo de novo.
E neste mesmo dia, dando aula para um outro grupo, eis que eu pergunto se alguém sabia o que era summarize (resumir) e o Rupesh solta a pérola: "Claro, 'so simple', summarize é a mesma coisa que bem quente." (uma mistureba de summer e muita imaginação). E bota imaginação nisso. 
"Vocês me deixam looouca!"