domingo, 16 de outubro de 2011

Lá vou eu embora, de novo

É estranho se despedir de pessoas que você sabe que não vai ver de novo.  Terça que vem parto daqui para Jakarta, onde fico por algumas semanas resolvendo pepinos burocráticos antes do meu próximo projeto. Então hoje foi o meu último dia na escola.  Recebi muitas cartas das crianças cheias de “Don’t forget me” and “Come back soon”.
Esquecer esta experiência seria impossível, mas voltar também não é nada provável. Tantas passagens, tantas vidas.
Estes dias estão sendo corridos, cheios de jantares de despedidas, passeios e fazer a mala – mais uma vez.  Eu adoro mudança, eu adoro viajar, mas esta parte de deixar pessoas para trás é sempre difícil. Se despedir com um  ‘adeus’ de verdade é ainda mais esquisito.  Eu não sou do tipo que demonstra sentimentos, mas sinto por dentro. Mais uma das muitas coisas que eu ainda tenho a aprender.  
O projeto na escola foi intenso. Me irritei muito com a falta de planejamento, com a quantidade de horas que são usadas para reza e estudos do alcorão, com os atrasos constantes, com a falta de consistência.  É díficil mudar num lugar que ninguém briga, ninguém reclama, ninguém discute.
No final, correu tudo bem, a  vida segue seu fluxo. Acho que minha ideia de introduzir o planejamento aqui não dará frutos. Mas no final o que interessa  são as  pequenas ações e vou me contentar com os momentos de aprendizado que tive.
 Foram muitos e foram bons!


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ah, o Brasil

Quando me perguntam de onde eu venho, geralmente eu peço para que tentem adivinhar e até hoje ninguém acertou. É sempre: “Australian, Ms.? German? Spanish? American?” Já fico feliz com o ‘Spanish’, porque o Brasil aqui é uma terra tão, tão distante que na maoria das vezes eles nem consideram como uma possibilidade. Além disso, estrangeiro é pele clara e alto e ponto final.  São todos colocados no mesmo balaio. Acredito que um dos motivos seja que viajar para outro país é quase impensável para a grande maioria da população da Indonésia. A moeda simplesmente não ajuda. E como a educação também deixa a desejar, o conhecimento geográfico aqui....é praticamente inexistente.  (Na verdade, acho que se você perguntar para um Brasileiro sobre a Indonésia, não seria muito diferente. É longe pra burro e a terra é populosa demais...)
As perguntas sobre o Brasil têm sempre o mesmo tema – futebol. Tem um menino na escola que se chama Rivaldo, em homenagem ao ídolo do pai. Só que quando o assunto não é futebol, este é o tipo de coisa que eu escuto:
- O Brasil fica perto da Espanha?
- O Brasil é uma ilha?
- No Brasil se fala inglês?
- Eu queria fazer meu mestrado nos EUA, daí eu vou estar pertinho do Brasil.  Dá pra ir de ônibus?
- Nossa, Maria, olha que legal, este moço é espanhol, até que enfim você encontrou alguém da sua terra.
- O Brasil fica no Pacífico?
- Mas vocês falam português por quê? Estão do lado de Portugal?
- Existe gente loira no Brasil? Todo mundo é alto assim? Tem até negros?
              - Eu sei uma palavra em português: Gracias.  Viu só Maria?
Vi, eu vi que minha terra é mais desconhecida do que eu imaginava.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A descoberta etílica

Entre uma conversa e outra com uma garota da organização eis que surge o assunto. Começou assim: “Eu queria te perguntar uma coisa. Posso?”, disse ela. E eu: “Claro, pode me perguntar o que você quiser, sem problemas”. E a pergunta foi: “Cerveja e vinho são a mesma coisa?...É que eu nunca vi, eu não sei como é que é, você sabe?”
Daí eu comecei a explicar, dizendo que não, vinho é feito de uva fermentada, pode ser branco ou tinto. Cerveja é uma bebida fermentada também a base de cevada, pode ser de trigo. Geralmente é servida gelada, é amarelada, com uma espuma em cima...
E o papo continua:
-  Ahhh, mas trigo não é o cereal que faz pão?
- É, mas pode-se fazer cerveja também...vinho e cerveja são duas bebidas diferentes como chá e café.
- Ahhhh...entendi. E coquetel, o que é um coquetel?
- Coquetel...bem...tem muitos tipos...você mistura ingredientes diferentes para fazer uma bebida. Pode ser de frutas, a maioria é com alguma bebida alcoólica, mas existe coquetel sem álcool.
- Tá. Eu vi num filme que tem uma bebida que se chama rum. Mas eles usaram para cozinhar, então é um ingrediente para se fazer comida?
- Olha, pode-se usar rum para cozinhar, mas rum se bebe também...por exemplo, você pode fazer um coquetel com coca cola e rum. Tem outro com rum, limão, acúcar e hortelã...tem muitas formas.
- Ok. Só mais uma pergunta. E champagne? O que é champagne?
- Ah, champagne é tipo um vinho branco, mas espumante. Sabe, tipo água com gás....ou refrigerante...não têm aquelas bolhas?
- Ahhhh, então é vinho com soda....
- Não.  Não tem soda, é tipo um vinho branco com umas bolhas de ar.
- E daí você bebe estas coisas e fica bebâda....mas como é ficar bêbada? O que a pessoa sente?
- Olha se você beber só um pouco você não fica bêbada não...mas você começa a sentir seu corpo diferente...perde um pouco o reflexo...tenm gente que ri, tem gente que chora. Mas se você beber demais você vomita.
- Nossa, que estranho.

 Estranho mesmo foi este papo sem pé nem cabeça. A coitada teve que se satisfazer com a minha explicação mequetrefe e eu tive que me contentar com o chá com limão e mel que eu tomava durante a conversa. 
Foi assim que minha vida de profissional voluntária começou. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma camêra a menos, muitas experiências a mais

Minha querida camêra foi presente de papai , Sony Super zoom, para que eu registrasse meus momentos especiais. No começo, achei pesada demais, nada prática...mas depois de uma semana já estava na dela. Super fácil de usar com um zoom realmente sensacional. Me acostumei com o seu peso na mochila e logo ela se tornou a minha grande companheira inseparável nesta jornada. Mas assim como ela veio, ela se foi – cheia de mistérios, sem despedidas.
Resolvi de última hora voar para Medan que fica uma hora de distância daqui, lá perto fica Bukit Lawang, cidade sede de um parque nacional com orangotangos. Fui sozinha, sem muitos planos depois do trabalho. E lá, na sala de embarque do aeroporto de Padang, a máquina some da mochila. Não vi quando, nem como, nem onde exatamente...Fiquei super frustrada e jururu, mas a viagem ainda estava por vir.
Cheguei em Medan no final da tarde, achei um ojek (moto taxi) que me levasse na estação de ônibus para achar algum que fosse para Bukit Lawang. Quando cheguei, o ùltimo ônibus já tinha partido, então lá vou eu descobrir uma mini van embaixo de chuva. Não vamos esquecer que eu estava em Medan, a quarta maior cidade do quarto país mais populoso do mundo...sim, o caos reina nestas circunstâncias. Mas eu achei uma sem vidros nas janelas, com a chuva torrencial, e cheia de caixas de papelão entre os passageiros...
Já era noite quando cheguei no vilarejo, ainda sem pousada. Achei um becak – uma motoca com extensão lateral – e pedi que me levasse para uma pousada. Para chegar precisei atravessar 'a ponte do rio que cai' no escuro e embaixo de chuva e foi lá que minha sorte virou.
Conheci um pessoal e passamos dois dias incríveis na selva, com direito a dores nas pernas, muitos orangotangos, camping, cervejinha, risadas, rafting....
Um dia a gente perde, outro dia a gente ganha.
Com a Jack e seu filhote, feliz da vida

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Só muda o endereço

A rotina daqui segue como a daí. Os professores reclamam dos seus sálarios. Acham que o diretor não deveria ganhar bem mais já que são eles que ralam e fazem acontecer. Mas o chefe acha que seus empregados  deveriam se doar  e serem mais comprometidos. Tem fofoca no corredor e meninos aprontando.  Gente morrendo de sono na primeira aula e desculpas esfarrapadas para explicar a falta de lição de casa.
Em casa, Intan reclama que não tem tempo para ficar com a família. Reclama que o mercado tá caro, que a corrupção no governo é demais e que o marido chega muito tarde do trabalho. Domingo é dia de diversão em família, em casa, no parque, na praia, no rio.
Nas ruas, o transporte público é lotado, a fila do banco é desesperadora e a burocracia para renovar a carteira de identidade é de chorar. A vizinha reclama do amor não correspondido e do barulho da casa do lado também.
Entre nossas diferenças, eis  que no fundo  somos todos iguais. 
Os meninos daqui também se divertem.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mamãe, aqui também tem barata

Sempre começo um tópico aqui e logo pulo para outro. Escolher um título para o post é sempre complicado. Tem tanta coisa diferente e tantos assuntos que eu fico perdida. Então fica assim, um monte de coisa  misturada, jogada no ar. Acho que você já percebeu e já até se acostumou, mas nunca é tarde para se explicar. Desculpa esfarrapada feita, agora vamos aos fatos.
Sou cegueta, tenho 4.5 de miopia e não vivo sem minha lente de contato. Trouxe algumas, mas achei melhor ir atrás de uma ótica para ver se achava aqui mais algumas, só para garantir. Cheguei na ótica, com minha habilidade linguística deixando a desejar e expliquei como pude o que queria. A vendedora tentou e conseguiu me entender. Ótimo, maravilha, fiquei me achando a poliglota. Ela foi então me mostrar onde estavam as lentes e quando vi, tinha uma super barata andando entre as caixas. Não sabia se avisava ou não, não queria que ela enfiasse a mão na barata. Então disse: “Hati hati” (ou seja, cuidado). Ela, com a expressão mais calma e natural possível, simplesmente espantou a barata com a mão e pegou a caixa. Dei um sorrisinho amarelo e agradeci, ela não tinha a marca que eu uso e eu não fiquei muito entusiasmada com a compra. Isso me fez lembrar mamma mia.
Minha mãe não suporta baratas, não é verdade, Zena? Ela me perguntou algumas vezes se aqui tinha muita. Sim, aqui tem muita barata nas ruas, nas lojas, no angkot. Mas este episódio foi sensacional, fiquei rindo sozinha depois, só pensando em como minha mãe reagiria. Ela teria dado um escândalo daqueles. Daí me peguei pensando no meu banheiro daqui.
Já descrevi as peripécias higiênicas algumas vezes, mas ainda não mencionei que  meu banheiro fica na cozinha. O banheiro tem uma parede que não vai até o teto e ele fica na cozinha e é lá no banheiro também que se lava a louça. Nunca tem água na torneira da pia, então a gente deixa uns baldes cheios no banheiro e é com esta água que se lava a louça e também a bunda...(desculpe-me pela falta de tato, mas é verdade). Agora imagine-se com dor de barriga no momento em que alguém está preparando a janta.

Ao mesmo tempo que falo tudo isso, tenho descoberto como é simples se acostumar com as mudanças. É assim que funciona aqui, então vamos que vamos. De alguma forma - que eu talvez não entenda por causa dos costumes em que cresci - dá certo, funciona, vive-se. Conto porque sei que lhe parece estranho, mas o seu certo aqui é errado, entende?


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A mão direita, insetos e pesadelos

Preciso amarrar meu braço esquerdo nas costas, colar minha mão no bolso, ou tentar uma outra alternativa. O que não dá é continuar esquecendo que a mão esquerda é impura por aqui (não vamos esquecer que não tem papel higiênico no banheiro e o pessoal se lava com a mão esquerda – sem mais detalhes).
De vez em quando, entrego o dinheiro com a mão esquerda, entrego livros para as crianças, uso a mão para comer e demora alguns minutos para eu perceber que tem alguma coisa errada. Eles me olham com receio, não estendem a mão em retribuição...só daí eu percebo que tem alguma  esquisista. Sou devagar, eu sei.
Falando em mão direita, deixa eu mencionar o coitado do meu pé. Na minha pele não tem espaço em que não haja uma picada. Depois do infortúnio com o rato, minhas noites que seguiram aquele nojento episódio não foram fáceis. Eu estava com tanto medo que aparecesse um rato que esqueci completamente de passar repelente. Aqui tem muito pernilongo - demais no caso - e um dia sem repelente na hora que está escurecendo já é o suficiente. Agora o coitado do meu pé, também direito, está tomado...o resto do corpo também, mas sem comparação.
Mentaliza, mentaliza, Maria Isabel, nada de coceira, nada de coceira....
Espertinhos